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01/08/09
Distribuindo alegria e boa música
por Caio Sena

Lia de Itamaracá se apresentou espalhando energia, mostrando sua força do início ao fim do show.

Lia de Itamaracá: A cultura viva subiu no palco para mais uma apresentação. A maneira como Lia entra é diferente. Existe uma presença, um traje especial, um sorriso no rosto. A banda começou a soltar os primeiros batuques e o público já começou a dar as mãos.

[Leia a entrevista com Lia de Itamaracá]

Uma das características marcantes da artista é a ciranda. "Boa noite, eita mais isso aqui tá muito bom. Segue com a ciranda", cumprimentou. E o público, entendendo o recado, começou a fazer algumas rodas, uma grande incorporando as rodas menores. Em um ritmo único todo mundo começou a girar e brincar de ciranda e, apesar da sintonia, cada pessoa tinha um jeito singular de dançar, o que dava uma característica muito bonita à dança.

"Eu sou Lia da beira do mar
Morena queimada do sal e do sol
Da Ilha de Itamaracá

Quem conhece a Ilha de Itamaracá
Nas noites de lia
Prateando o mar
Eu me chamo Lia e vivo por lá

Cirandando a vida na beira do mar..."

Bum...Bum...Bum! O som de Lia é contagiante, e Lia é forte do início ao fim do show. As únicas pausas que fez foi para saudar o público ou sorrir, em uma troca de energia magnífica. "Quantos olhos lindos meu Deus", dizia para o público.

Depois de muito balanço, Lia tentou encerrar o show pela primeira vez. E o público respondeu com a clássica pedida de mais uma canção, uma espécie de coral ensaiado "mais um, mais um, mais um..."

Atendendo aos pedidos, a cantora voltou para o palco, não só uma, mas duas vezes. E finalizou sua apresentação cantando a música "Adeus meu senhores, queiram desculpar. Até outra vista se Deus ajudar, adeus já é tarde, nós vamos partir e o dia amanhece, Lia vai dormir... dormir... dormir...".

Dom de Deus

Maria Madalena Correia do Nascimento nasceu no dia 12 de janeiro de 1944, na ilha de Itamaracá, Pernambuco. Sempre morou na Ilha e começou a participar de rodas de ciranda desde os 12 anos de idade. Foi a única de 22 filhos a se dedicar à música. Segundo ela, trata-se de um dom de Deus e uma graça de Iemanjá. Mulher simples, com 1,80m de altura, canta e compõe desde a infância e hoje é considerada a mais famosa cirandeira do Nordeste. Trabalhou como merendeira numa escola pública da rede estadual de ensino até 2008, quando recebeu da Fundarpe o título de "Embaixadora" da casa da Cultura do Recife. Nas horas vagas, dedica-se à musica e à ciranda, além de cantar e compor cocos de roda e maracatus.

No ano de 1998, quando foi uma das atrações do Abril pro Rock, começou a seguir carreira artística paralela ao seu ofício de merendeira. A partir de então, a cirandeira foi convidada para participar de apresentações pelo Brasil e no exterior. Hoje, Lia de Itamaracá é considerada Patrimônio Vivo da cultura de Pernambuco.

A compositora Teca Calazans foi uma das primeiras pessoas interessadas na cultura popular nordestina a descobrir o seu talento e acabaram fazendo alguns trabalhos em parceria, como o resgate de músicas em domínio público e composições. Maria Madalena começou a ficar conhecida como Lia de Itamaracá, nos anos 60 e é a fonte de um refrão famoso, recolhido pela compositora Teca Calazans: Oh cirandeiro/cirandeiro oh/ a pedra do teu anel brilha mais do que o sol. A estes versos Teca incorporou uma toada informativa, que também teve grande sucesso: Esta ciranda quem me deu foi Lia/ que mora na ilha de Itamaracá.

Abril pro Rock

Em 1977, Lia gravou seu primeiro disco, intitulado A rainha da ciranda, pelo qual recebeu apenas 20 exemplares para distribuir e nenhum centavo. Mais de duas décadas depois, foi redescoberta, quando o produtor musical Beto Hees a levou para participar do festival Abril Pro Rock, realizado no Recife e em Olinda, em 1998, onde fez grande sucesso e tornou-se conhecida em todo o Brasil.

Antes ela só era famosa em Pernambuco e entre compositores e estudiosos da cultura popular nordestina. Em 2002, saiu seu primeiro CD, Eu Sou Lia, lançado pela Ciranda Records e reeditado pela Rob Digital, cujo repertório incluía coco de raiz e loas de maracatu, além de cirandas acompanhadas por percussões e saxofone. Por ocasião do lançamento, apresentou-se em outras capitais e ministrou workshops.

O CD foi distribuído na França por um selo de world music e a voz rascante de Lia chamou a atenção da imprensa internacional, que começou a batizar suas canções de trance music, numa tentativa de explicar o "transe" que o som causava no público.

Mesmo obtendo um sucesso tardio, fez turnês internacionais obtendo muitos elogios. O jornal The New York Times a chamou de "diva da música negra". No Brasil, Lia também conquistou mais espaço. Participou com uma faixa no CD Rádio Samba, do grupo Nação Zumbi, teve seu nome citado em versos dos compositores pernambucanos Lenine e Otto, e críticos de música a comparam a Clementina de Jesus.

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