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Conheça a história da Comunidade Kalunga junto à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge

15/11/17 | Nesta quarta-feira (15/11) acontece na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge a abertura oficial da exposição Ser Kalunga, que retrata a participação da Comunidade do Sítio Histórico Kalunga nos 20 anos de existência da casa

Foto: Maria Anísia Barros

Nesta quarta-feira (15/11) acontece na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge a abertura oficial da exposição Ser Kalunga, que retrata a participação da Comunidade do Sítio Histórico Kalunga nos 20 anos de existência da casa.

Desde 1997 a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge trabalha em favor dos povos da região da Chapada dos Veadeiros com projetos de arte-educação e cultura.  Com o objetivo de oportunizar encontros que valorizem os saberes tradicionais dos povos que aqui habitam e a fruição das artes, a instituição tornou-se referência no que tange a projetos que contribuem efetivamente para a valorização e o fortalecimento da cultura tradicional brasileira e, portanto, da identidade nacional.  

Conhecida principalmente pela realização do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e da Aldeia Multiétnica – realizados tradicionalmente em julho – as ações da  casa possuem um alcance que não pode ser dimensionada por quem conhece apenas as festividades de julho. A Comunidade do Sítio Histórico Kalunga é parceira da instituição desde idos dos anos 90, quando Juliano George Basso, idealizador do Encontro de Culturas, conheceu a comunidade e seus festejos.

Na língua banto, de origem africana, Kalunga significa lugar sagrado, de proteção. No sentido dado pelos moradores do Sítio Histórico, significa "lugar sagrado que não pode pertencer a uma só pessoa ou família", ou "lugar onde nunca seca, arável, sendo bom para as horas de dificuldade". A terra começou a ser habitada em meados do século XVIII, quando africanos escravizados fugiram em busca de liberdade. Apenas na década de 1980, o povo Kalunga descobriu que havia outra realidade ao ultrapassar as serras. Até então, não sabiam que o período de escravidão havia terminado, ao menos no papel.

Ao conhecer as festas populares dos Kalunga, Juliano compreendeu a importância de preservar seus ritos, costumes e saberes. A forte religiosidade do povo é demonstrada por meio dos festejos em homenagem aos santos de cada época. Suas festas são a caracterização genuína da cultura popular, em que o sagrado e o profano se misturam. Mais do que comemoração religiosa, elas têm um papel social. É nelas que parentes se reencontram, crianças são batizadas, são realizados casamentos e reivindicações são ouvidas por representantes políticos. Quando reunida, a nação Kalunga mostra ainda mais sua humildade, alegria e o valor de preservar as tradições.

Daquele momento em diante, a Comunidade do Sítio Histórico Kalunga passou a integrar a rede das comunidades da região da Chapada dos Veadeiros que identificam os valores e missões da Casa.  Sempre acreditamos que era preciso ressaltar o valor das raízes culturais brasileiras, fomentando essas manifestações culturais por duas razões principais: pelo perigo de descaracterização a qual as culturas das comunidades rurais estão expostas e pela situação de exclusão social dessas populações e sua marginalização, tanto da prática político‐social quanto do imaginário cultural nacional.

Para qualquer um que assiste aos ritos religiosos encenados no palco ou nas procissões pelas ruas da vila e observe o encantamento da audiência jovem e sedenta pelo contato com essas tradições brasileiras, é explícita a troca de informações culturais entre diferentes gerações e também a preciosidade das oportunidades de contato entre as mesmas.

Rituais, danças e cantos de origem tradicional que só tinham valor cultural e artístico para a comunidade que cultivava tais tradições cotidianamente passaram a ganhar o prestígio e a legitimidade de um público diversificado, formado por brasileiros e estrangeiros, o que ajuda a fortalecer a estima das culturas tradicionais brasileiras, antes esquecidas pelas comunidades urbanas – em alguns casos até pelas próprias comunidades rurais nas quais ocorrem tais manifestações – e até mesmo estigmatizadas.

Políticas públicas em favor do fortalecimento das pautas da Comunidade do Sítio Histórico Kalunga 

Outro importante fator a ser considerado é o contato com as políticas públicas culturais e sociais responsáveis pela elevação da qualidade de vida dessas comunidades. Neste sentido realizamos em 2012 a primeira edição do Encontro de Lideranças Quilombolas de Goiás, um marco para nós e para a comunidade que naquele ano viram, nesse evento, uma oportunidade de reunir as comunidades para discussão de problemas comuns e contemporâneos, favorecendo a articulação e o fortalecimento dos quilombos do Estado. Diante dessa constatação, as próprias lideranças presentes solicitaram à organização do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros que assumisse o compromisso de manter vivo aquele espaço, pois o evento estava colaborando com a articulação e fortalecimento político dos mesmos.  

Dessa maneira, metas foram criadas e o II Encontro de Lideranças Quilombolas de Goiás teve como principais objetivos o fortalecimento institucional das comunidades quilombolas do estado de Goiás, a identificação das principais demandas daquelas comunidades e o mapeamento das potencialidades e vulnerabilidades das ações propostas como ferramentas de autonomia e valorização da cultura desses grupos.

Em 2014 o Encontro de Lideranças Quilombolas foi cancelado por falta de apoio governamental e só foi realizado no ano seguinte, em 2015, quando importantes pautas relacionadas à exploração do trabalho infantil e sexual de menores nessas comunidades tomaram os noticiários. Diante da situação local, o Encontro de Lideranças Quilombolas voltou a trabalhar com base na articulação e fortalecimento institucional da comunidade quilombola do Sítio Histórico Kalunga propondo debates e discutindo com o poder público a garantia de direitos básicos.

Em 2016 a organização do IV Encontro de Lideranças Quilombolas apostou em intercambiar experiências exitosas de outras localidades para possibilitar a esses povos a criação de mecanismos e projetos que auxiliem na capacitação e no fortalecimento de suas iniciativas culturais, educacionais e profissionais, voltadas à conquista da autonomia econômica, social e cultural.

Em 2017 o evento contou com o apoio do Ministério da Cultura e da Fundação Palmares que teve como objetivo fortalecer os intercâmbios entre as comunidades do Sítio Histórico Kalunga, promover atividades de capacitação da juventude quilombola, fomentar o surgimento de novas lideranças, documentar a situação desses grupos e planejar ações de fortalecimento da identidade coletiva dos quilombos goianos e dos indicadores sociais e econômicos dos grupos.

A Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge teve em 2006 seus esforços reconhecidos como uma das dez melhores iniciativas de valorização da cultura tradicional pelo Ministério da Cultura (Minc) com o Prêmio Cultura Viva. Em 2014 foi premiado pelo Instituto Brasileiro de Museus, como Ponto de Memória e em 2015, foi consagrado com o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, realizado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), na Categoria II, que contempla iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada.

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