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Turma Que Faz e Tambores do Tocantins: intercâmbio de arte e cultura

28/11/16 | De 24 a 27 de novembro de 2016, Goiás e Tocantins se reuniram para celebrar arte, cultura e o poder de transformação social de ambas

De 24 a 27 de novembro de 2016, Goiás e Tocantins se reuniram para celebrar arte, cultura e o poder de transformação social de ambas. Os artistas da Turma Que Faz, coordenados pela arte-educadora Doroty Marques, viajaram 600 km, da vila de São Jorge até Porto Nacional, para encontrarem os artistas do Tambores do Tocantins e seu mestre, Marcio Bello. Foram quatro dias de vivências, integração cultural, apresentações e discussões entre os participantes dos dois projetos, que têm como uma de suas missões mais importantes a valorização das culturas tradicionais de seus estados por meio da arte e da inclusão social de crianças e adolescentes.

A história do Tambores do Tocantins começou em 1992, quando o músico percussionista Marcio Bello, natural do Mato Grosso do Sul, fixou-se na cidade de Porto Nacional após uma temporada morando em Palmas. Foi na cidade centenária, considerada o berço da cultura tocantinense, que ele começou um trabalho de pesquisa sobre a cultura local com músicos e artistas nativos. Com o tempo, Marcio percebeu que manifestações e elementos importantes da cultura, como instrumentos de percussão, estavam se perdendo por conta da falta de transmissão de suas técnicas de construção. Como uma luz, nasceu a ideia de criar um projeto que, a princípio, se tornasse uma ferramenta de preservação e valorização da cultura e dos saberes tradicionais do Tocantins. A ideia se expandiu para uma ação social e cultural maior: tornou-se instrumento de inclusão das crianças e jovens da comunidade de Porto Nacional, transformando-os em artistas.

Movimento semelhante aconteceu na vila de São Jorge, distrito de Alto Paraíso de Goiás, na entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Foi no ano de 2003 que o projeto Turma Que Faz entrou nessa antiga vila de garimpeiros em pleno cerrado, pelas mãos da arte-educadora e musicista Doroty Marques, que naquele ano se apresentou no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. A vila a inquietou, assim como todos os lugares pelos quais passou, das favelas do Sudeste às periferias e matas do Norte do Brasil. Desde então, mudou a vida de muitas crianças e adolescentes da região. Hoje, é raro não encontrar um deles que não tenha passado pelo projeto e por sua dinâmica, que visa o desenvolvimento do capital humano por meio de experiências significativas que promovam a auto-estima, a comunicação e a expressão, a convivência familiar e comunitária, o reconhecimento do contexto em que vivem e a consciência ecológica e patrimonial. Assim como o Tambores do Tocantins fez com Porto Nacional, desde quando a Turma Que Faz entrou na vila de São Jorge ouvem-se batidas ritmadas e sentem-se cores mais vivas pelas ruas e escolas locais.

Dos dois projetos, nasceram grupos com artistas que após anos de formação se tornaram o que gostamos de chamar de multiplicadores: são eles que absorveram o conhecimento transmitido por seus mestres e que agora estão preparados para auxiliar na arte-educação dos mais novos e na realização de um trabalho artístico próprio. O grupo Tambores do Tocantins é formado por esses multiplicadores e reveza integrantes que participam do projeto nos shows que faz pelo Brasil e em outros países, para que todos tenham a chance de experienciar a realização de grandes apresentações públicas. Pelo multiplicadores do Turma, o espetáculo Peña Folclórica foi criado em julho de 2015 e desde então se apresenta na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge em datas festivas, tornando-se um atrativo cultural na agenda da Chapada dos Veadeiros.

Há dez anos, Marcio e o Tambores participam do Encontro de Culturas, em toda segunda quinzena do mês de julho, na vila de São Jorge, realizando um dos shows mais aguardados da programação. Reúnem-se com os artistas do Turma Que Faz e Doroty para conversar sobre os projetos e pensar em ações em conjunto. Há quatro anos a ideia de levar os artistas do Turma ao Tocantins para um intercâmbio cultural e retribuição de visita se fez promessa e alimentava a expectativa de se tornar realidade. O ano de 2016 chegou para concretizá-la. Começou no Encontro, em uma troca que aconteceu e pode ser relembrada aqui (link). E por fim no último 24 de novembro, quando uma turma de 11 artistas pegou a estrada rumo a Porto Nacional para realizar mais uma das ações do projeto “Rede Encontro de Culturas & Aldeia Multiétnica: 15 anos de colaboração cultural”, premiado pelo Ministério da Cultura por meio do edital Cultura de Redes, que contemplou 20 iniciativas que têm como objetivo o fortalecimento de redes que articulam iniciativas culturais em pelo menos cinco estados do Brasil.

A viagem

No dia 24 pela manhã nos acomodamos na van do Régis rumo a Porto Nacional. Eu, Doroty, Caio, Renato, Marcos, Naian Nara, Gabriela, Raquel, Poliana, Isabela, Beatriz e Maria Eduarda. O trecho São Jorge – Alto Paraíso de Goiás já é deslumbrante. Até o Tocantins mereceu mais exclamações admiradas. Cerrado preservado, serras, morros, muito verde, passagens em pontes sobre rios, casas tradicionais de palha ora ou outra na beira. No mostrador da van, o termômetro aumentava conforme nos aproximávamos da fronteira entre Goiás e Tocantins e só subiu até chegarmos em Porto Nacional – quase 40 ºC nos receberam e marcaram presença nos próximos três dias, junto com aquela sensação de melado no corpo que é tão familiar conforme rumamos ao Norte do Brasil.

A programação do intercâmbio foi intensa do início ao fim, cuidadosamente preparada pelo mestre Marcio Bello. Na chegada, fomos recebidos pelos integrantes do Tambores do Tocantins em um ensaio especial no Centro das Crianças Dra. Heloisa Lotufo Manzano, sede do projeto. O espaço foi construído em 2004 para abrigar o Tambores e outras atividades desenvolvidas para a comunidade do setor Parque Eldorado. “Na época que ganhamos a doação do dinheiro para a construção, sugeriram que fizéssemos no centro da cidade, mas não topamos. Esta região era considerada perigosa, criminalizada. Mas a maioria dos nossos alunos morava aqui. Nossa decisão mudou a realidade local. Hoje toda a comunidade tem orgulho de falar que mora no Parque Eldorado, onde fica o Tambores do Tocantins”, conta Marcio.

No dia 25, sexta-feira, pegamos a estrada novamente rumo a Colinas (TO), a cerca de 400 km de Porto Nacional. Ali, fomos recebidos pelos alunos e coordenação do IFTO (Instituto Federal do Tocantins) para a apresentação de dois shows durante a festa especial para o Mês da Consciência Negra. O público não poderia ser mais receptivo. Estudantes do segundo e terceiro ano do Ensino Médio vibraram a cada música da Peña Folclórica, com Turma Que Faz e Doroty Marques, e do Tambores do Tocantins. Saímos de lá com os corações recarregados de boas energias e prontos para os próximos dois shows que viriam.

O sábado, 26, começou com uma visita à Praia Porto Real, banhando nas águas do rio Tocantins e dele recebendo boas vibrações do estado que a cada momento nos conquistava mais. Pela tarde, a confraternização se deu entre Turma Que Faz e Tambores do Tocantins em uma roda de conversa e música. Tambores, cajons e xequerês tomaram conta do espaço do Centro das Crianças Dra. Heloisa Lotufo Manzano, com os artistas transmitindo seus conhecimentos uns aos outros. O dia terminou com mais uma apresentação na Escola Estadual Carmenia Matos Maia, na festa de confraternização de final de ano.

No domingo, 27, foi a vez de pegar estrada novamente, rumo a Taquaruçu, uma das cidades mais procuradas pelos turistas que conhecem o Tocantins, por conta de suas 80 cachoeiras catalogadas. Passamos boas horas na cachoeira do Cavalo Caído, mas o ponto alto do dia foi a recepção de nossos anfitriões, Betânia Luz e Tharson Lopes, amigos de longa data do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e fundadores do Canto Das Artes – Associação dos Amigos da Cultura e do Meio Ambiente, Ponto de Cultura criado em 2007. Assim como a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, na qual ela é inspirada, a associação tem projetos socioculturais que envolvem arte e educação, além de uma boa energia contagiante que se sente assim que colocamos os pés porta adentro. No Canto das Artes, nesse dia ouviram-se muitos ritmos e planos para projetos de incentivo à cultura brasileira. Terminamos com uma ciranda de roda ao entardecer, com mãos, vozes, mentes e corações unidos.

Projetos socioculturais: o desafio da continuidade

Financiado pela Petrobras por sete anos, o projeto Turma Que Faz desenvolveu um trabalho grandioso na vila de São Jorge durante esse período, proporcionando a mais de 200 crianças de famílias de baixa renda, em situação vulnerável e de risco social, o acesso aos direitos preconizados no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) por meio de uma formação artística e atividades de cunho educativo, cultural e ambiental.

O patrocínio foi encerrado no ano de 2013 e desde então nenhum apoio financeiro externo foi alcançado, com exceção da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, que se mantém na luta pela continuidade do projeto e de estratégias que garantam sustentabilidade a ele. O Projeto Todos Nós, também financiado pela Petrobras, proporcionou uma sequência do Turma Que Faz durante um ano, no período de 2015 e 2016, junto aos jovens da comunidade, em sua maioria integrantes do Turma Que Faz, visando a capacitação dos mesmos para o mercado de trabalho na cadeia produtiva da cultura. No entanto, ele não alcançou o número de crianças e jovens necessário para um trabalho realmente efetivo de formação cultural, como fazia o Turma Que Faz.  As atividades desenvolvidas de 2007 a 2013 foram paralisadas, situação que continua até hoje, neste ano de 2017. Seguimos com o espetáculo Peña Folclórica – com Turma Que Faz e Doroty Marques, apresentado nos feriados, na Casa de Cultura, cuja bilheteria é 100% destinada aos artistas.

Junto à comunidade da vila de São Jorge, que acredita, a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge segue confiante em um futuro melhor para as crianças e jovens da Chapada dos Veadeiros. Agradecemos o apoio de todos que estão ao nosso lado e participam de todas as ações da Turma Que Faz que acontecem ao longo do ano.

Nosso agradecimento aos integrantes do Tambores do Tocantins, com ênfase no mestre Márcio Belo; a AIFO (Associazione Italiana Amici di Raoul Follereau), que é apoiadora do projeto do Tambores e nos acompanhou na viagem com muita disposição e bom humor; ao IFTO (Instituto Federal do Tocantins); à Escola Estadual Carmenia Matos Maia; e ao Canto Das Artes – Associação dos Amigos da Cultura e do Meio Ambiente.

Vida longa à Turma Que Faz e ao Tambores do Tocantins!

>> Confira todas as fotos do intercâmbio AQUI.

> Interessados em contratar as apresentações do Peña Folclórica com Turma Que Faz e Doroty Marques devem entrar em contato pelo e-mail comunicacao@encontrodeculturas.com.br ou pelo celular (61) 9 8585-7670. Estamos disponíveis para shows e oficinas em escolas, casas de show, palcos abertos, festas e festivais.

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