pt | en

Águas Belas: bela e sem água

16/02/17 | A equipe da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge visitou Águas Belas, município onde vive o povo Fulni-ô

Com o objetivo de fortalecer a rede criada com os Fulni-ô nesses 10 anos de realização de Aldeia Multiétnica, a equipe da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge fez uma visita a Águas Belas para diagnosticar os resultados da participação deste povo no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, verificar de forma mais atenciosa suas demandas e pensar em projetos que auxiliem a comunidade de forma direta. Este foi também um momento importante para que a equipe de comunicação fizesse entrevistas e checagens para a produção de matérias maduras sobre a vida e história do povo Fulni-ô.

O ponto de partida de nossa primeira matéria da série Cavaleiro na Estrada sobre o povo Fulni-ô começa do chão. Um chão seco, arenoso e que tem fama de não produzir muito mais do que jurema, umbuzeiros e ouricuri, plantas nativas que desafiam a escassez do território compreendido que chamam de polígono das secas. Este ano, o município de Águas Belas, que na época de sua criação ganhou este nome pela qualidade da água potável encontrada na região, atravessa o oitavo ano sem chuva e, consequentemente, sem água até para as demandas mais básicas de seus habitantes.

Desde o primeiro contato com o povo Fulni-ô, algo me fisgou. No primeiro momento, a força dos seus cantos e as características físicas heterogêneas do primeiro grupo com quem partilhei dúvidas sobre sua organização, cultura e história, me chamaram a atenção de forma a abrir-me um mundo de possibilidades para estudos, reconhecimento e, posteriormente, ações como jornalista e produtora cultural.

Eu, como uma repórter inexperiente, ainda cursando a faculdade de jornalismo, e sem nenhuma noção sobre a situação dos povos indígenas no Brasil, suas lutas e prioridades, caí na besteira de acreditar que poucas horas de conversa me permitiria produzir um material que pudesse expressar a força do grupo que eu acabava de conhecer.

O problema é que a força deste povo - que nasce na região semiárida do Vale do Ipanema, no agreste pernambucano, e que deságua por todo o Brasil vendendo seu artesanato, em busca de melhores condições de vida para os parentes que permanecem em sua aldeia, garantindo o sustento de suas famílias e a continuidade de seu ritual sagrado, o Ouricuri - não poderia ser expressa em um texto rápido, sem uma checagem profunda e sensível, também com respeito ao que deve permanecer em segredo.

Viver em Águas Belas é uma situação bastante delicada. O município é alvo de disputas territoriais de muitos grupos e concentra os piores Índices de Desenvolvimento Humano de Pernambuco. Em 2006, a região do Itaíba, onde Águas Belas está localizada, foi apontada pelo Incra como uma das áreas de maior conflito social de Pernambuco.

A presença de mais de 40 mil habitantes não-indígenas dentro da reserva indígena Fulni-ô agrava ainda mais os problemas decorrentes da crise hídrica da região. O abastecimento que um dia foi motivo para chamar a cidade de bela é feito por meio de caminhões-pipa. A prefeitura do município os envia de 15 em 15 dias para distribuir água pelas casas. Essa água, no entanto, não tem qualidade para ser ingerida e, por vezes, causa diarréias e mal estar a quem depende dela para saciar a sede. O mais comum e seguro é comprar galões de água potável, mas isso não é tão simples pra maioria das pessoas que vive ali, sem empregos formais.  O povo que mora no município tem como demanda prioritária a água e quando recebem alguém de outro canto do país, a curiosidade principal é saber sobre este bem natural em outras regiões. 

Ricardo Veríssimo Fulni-ô, em vivência indígena em abril de 2016, na Chapada dos Veadeiros. 

 

“E lá pelas bandas do Goiás, chove?”, me pergunta Zé Xice Fulni-ô, que mora na Aldeia Xixiaklá, um aldeamento criado por sua mãe, dona Valentina, para conseguir criar os filhos de forma mais distante da animosidade presente no centro da cidade, onde não-indígenas e indígenas dividem forçadamente um dos primeiros territórios conquistados legalmente pelos povos indígenas no Brasil, reconhecido pela Coroa Portuguesa e pelo Império em Carta Régia de 1700.

Quando conto sobre os rios e cachoeiras que cercam as serras da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, onde moro, Zé Xice divide comigo o significado da palavra "Fulni-ô" em Yaathê, sua língua original.

“Em Yaathê, Fulni-ô significa 'povo que vive ao lado do rio'. Nos tempos antigos vivíamos na beira do rio. Tínhamos de um tudo, mas agora precisamos ir pra um lugar onde tenha vida. Sem água não existe vida. Capaz de eu arrumar um trabalho lá pelo Goiás, então”, me diz.

A mulher o repreende por dizer que quer ir embora dali. É que embora falte água, o povo Fulni-ô tem uma relação forte com sua terra, motivo para que todos que saem de Águas Belas voltem todos os anos no período do Ouricuri, ritual sagrado de três meses que consiste na mudança de toda a comunidade para uma segunda aldeia, onde afastam-se da cidade e realizam seus rituais, orações e atividades sagradas proibidas para não-indígenas.

Debaixo do sol ardido do Nordeste, o povo Fulni-ô luta pelo direito à terra que já é sua. Um solo sagrado que, contrariando as expectativas de quem pensa que há espaço para infelicidade ali, vê brotar, mesmo sem água, doses fartas de amor, fé e trabalho. Assim como Seu Zé Xice, que olhando para o céu espera a promessa das nuvens, Tullifowá sobe todos os dias para a Serra das Araras para preparar a roça. “Só falta a chuva. Hoje vai”, ri ele. É assim há anos. Confiam nas nuvens, que volta e meia prometem água e partem. No sertão de Águas Belas, a planta de maior vida que brota é a esperança. Uma esperança que ensopa quem chega e tem a chance de ouvir os cantos do povo Fulni-ô. Um canto forte em busca de água. 

Agenda

Programe-se para os próximos eventos
na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge


A Vila de Sao Jorge

Conheça a história da Vila criada por ex-garimpeiros de cristais
Faça parte da nossa comunidade e ajude a preservar as belezas da Vila
Veja a rota de carro a partir de Brasília até a Vila de São Jorge

Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge
Rua 4, quadra 4, lote 19, Vila de São Jorge, Alto Paraíso - GO
Telefone: 62 3455 1077 - contato@cavaleirodejorge.com.br

2005 - 2017 Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. Alguns direitos reservados.
Ao compartilhar, cite a fonte.