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Tuire e a primavera das mulheres que nunca viveram o outono

27/10/16 | A força de Tuire é uma demonstração simples da força da mulher Kayapó

Sábado, 12 de setembro de 2016. Tuire se prepara para o metoro que dará início às atividades da II Feira Mebemgokré de Sementes Tradicionais. O jenipapo é trazido por uma mehin-denominação para o povo Krahô- que divide com ela parte significativa do produto. Depois de se pintar, ela busca os adornos de cores verde e amarelo dentro de uma bolsa.  As cores dos enfeites remetem à bandeira do Brasil. Um Brasil bem menos verde do que era quando ela se tornou uma líder, mas que assim como no início de sua vida, que ela continua a defender de norte a sul.

Pronta para a grande festa, ela puxa uma fileira extensa de niras kayapó que marcham em trio. A cena é indiscutivelmente uma das mais belas e fortes imagens do início da primavera, este ano com chuva naquele pedaço de Brasil. A Dança da Mandioca antecede a fala das lideranças indígenas convidadas. Tuire é uma delas. A indígena conquistou espaço em todas as discussões políticas de seu povo por ser a representação da palavra guerreira. Sua importante atuação na luta contra a construção de hidrelétricas em suas terras e em favor dos direitos indígenas rendeu a ela fama nos quatro cantos do mundo como a mulher que desafiou Belo Monte e tudo que a empresa representa para os povos atingidos.

Com um facão em punhos explicou mais de uma vez aos engenheiros e porta vozes do estado que não aceitará jamais que destruam sua casa, seus rios e seu povo. Como resultado de cansativos encontros com os responsáveis pelo que governantes consideraram o caminho para “a aceleração do desenvolvimento nacional”, a indignação frente ao desrespeito aos costumes tradicionais e ao modo de vida dos povos indígenas do Brasil, resultou, no ano de 2008, em algumas gotas de sangue do engenheiro da Eletrobrás, Paulo Fernando Rezende sob o chão do evento que apresentou os impactos de Belo Monte.  O episódio recria a cena de Tuire ameaçando com um facão, há quase 30 anos, o então engenheiro da Eletrobrás, José Antônio Muniz. 

Os dois episódios são excelentes demonstrações da força da mulher Kayapó. Dentre as principais atividades da II Feira de Sementes Tradicionais, as mulheres se destacam no trabalho com a roça e na busca de sementes. São elas que com os filhos no braço e grandes cestos presos pela cabeça buscam a diversidade de frutos e alimentos de que precisam. Sob uma ótica simplista do mundo externo ao das aldeias indígenas há quem diga que elas, as guerreiras Kayapó, tem uma posição submissa aos maridos. Ledo engano. Essas mulheres se bastam. Para nada precisam esperar seus homens, mas esperam porque compreendem que a vida conjugal ultrapassa a dinâmica conflituosa das questões urbanas de gênero da atualidade.

Criadas para a guerra sabem das diferenças entre homens e mulheres, mas re-significam essas diferenças quando se pintam para maternalmente cuidar dos seus.

“Não tem moleza. Não vou nem falar sobre as dificuldades da mulher nesses espaços, mas nós, as mulheres Kayapó, estamos prontas para a luta. Não tem moleza”, explicou Tuire, que desta primavera que as mulheres dos grandes centros urbanos começam a experimentar agora, após um longo período de outono dormente, está inserida desde sua primeira pintura corporal.


Foto: Simone Giovine/ AFP 

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