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Os caminhos da II Feira Mebengôkré de Sementes Tradicionais

25/10/16 | Para chegarmos até o nosso destino rodamos 1.324 km de Alto Paraíso até Tucumã e pelo menos 90 km até a Aldeia Moikarakô. Diante de inúmeras observações registradas, uma das que mais valem a partilha é a que diz respeito ao acesso e à chegada

Saímos de Alto Paraíso de Goiás no dia 8 de setembro de 2016, rumo à Aldeia Mojkarakô, no Sul do Pará, para participar da II Feira Mebengokré de Sementes Tradicionais, realizada de 12 a 16 de setembro. A nossa participação teve como objetivo acompanhar a articulação entre as lideranças indígenas presentes na Aldeia Multiétnica e realizar a segunda etapa do projeto “Rede Encontro de Culturas & Aldeia Multiétnica: 15 anos de colaboração cultural”, que em 2016 contou com subsídios do edital Cultura de Redes, do Ministério da Cultura, na categoria nacional, que premiou projetos de fortalecimento de redes que articulam iniciativas culturais em pelo menos cinco estados.

Nesta segunda etapa, a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge realiza ações in loco junto aos grupos e coletivos culturais da rede. As ações listadas passam pelos seguintes estados brasileiros: Bahia, Goiás, Pernambuco, Pará, Minas Gerais, Tocantins e Distrito Federal. No Pará, o registro jornalístico da II Feira Mebengokré de Sementes Tradicionais foi uma das atividades destacadas. Esta produção contou com a cooperação e parceria da Associação Floresta Protegida, que cedeu todo o conteúdo fotográfico e audiovisual para a ilustração das matérias publicadas nesta série.

A Rede “Encontro de Culturas & Aldeia Multiétnica” e o povo Kayapó/Mebengokré

Todos os anos, na segunda quinzena de julho, o povo Kayapó pega um ônibus em Tucumã com destino à Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros.  As quase 16 horas de viagem são motivadas pela articulação entre as etnias fundadoras da Aldeia Multiétnica e para reforçar as discussões em torno da preservação da floresta e de suas tradições.

O povo Kayapó é um dos grupos étnicos fundadores da Aldeia Multiétnica. Participando do evento desde sua criação, em 2007, a segunda quinzena de julho passou a representar um mês de reencontros. Na Chapada dos Veadeiros, fazem parte de uma grande festa de valorização e fortalecimento cultural com etnias de diferentes lugares do país. Na programação do evento estão inclusas rodas de conversa, apresentações, debates e festas que valorizam a troca de saberes entre os povos convidados.

Em 2009, o povo Krahô, em ação de divulgação de sua Feira de Sementes Tradicionais, realizada por eles desde 1997, apresentou à Aldeia Multiétnica e às lideranças presentes no evento o projeto de conservação de recursos genéticos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). A atividade gerou o interesse de lideranças indígenas de outras etnias em também resgatarem sementes tradicionais que já não eram mais conservadas em seus territórios. O resultado desse movimento foi o fortalecimento da articulação indígena e a proliferação das feiras de sementes por todo o Brasil e é neste contexto que a Feira Mebengokré de Sementes Tradicionais nasce em 2012.

Com o objetivo de fomentar a circulação e a recuperação de sementes tradicionais, a segunda edição da feira, em 2016, focou no fortalecimento do povo Mebengokré e no intercâmbio com membros da etnia Krahô. O resultado foi uma considerável variedade de sementes trocadas e dias intensos de partilhas culturais na Aldeia Mojkarakô, na TI Kayapó.

Alto Paraíso (GO) a Tucumã (PA)

Para chegarmos até o nosso destino rodamos 1.324 km de Alto Paraíso até Tucumã e pelo menos 90 km até a Aldeia Moikarakô. Diante de inúmeras observações registradas durante a viagem, uma das que mais valem a partilha é a que diz respeito ao acesso e à chegada.

Não existe mais ônibus direto entre Alto Paraíso (GO) e Tucumã há cerca de dois anos, quando a Transbrasiliana deixou de operar no trecho. Assim sendo precisamos ir até Palmas, de lá pegar um novo ônibus com destino à Xinguara e, na sequência, outro ônibus nos levou a Tucumã, onde está localizada a sede da Associação Floresta Protegida.

De Alto Paraíso a Palmas pegamos o ônibus da mesma empresa que em 2015 deixou no meio da noite uma família Kayapó – que voltava ao Pará após participar da IX Aldeia Multiétnica – na beira da estrada, sendo conivente com um caso de racismo perpetrado por uma de suas passageiras (entenda).

Desta vez a empresa não deixou nenhum passageiro na beira da estrada, mas verificamos que isso poderia ter acontecido facilmente. Mais cedo, em conversa com o atendente, obtivemos as seguintes informações sobre a viagem e a passagem: “Cinquenta e quatro reais. O ônibus passa por volta das 22h, 22h30 e para na pista”, explicou.  A estrada estava deserta, o que nos fazia acenar para todos os ônibus que víamos.  Quando o nosso ônibus encostou, tivemos uma curiosa surpresa: segundo o motorista, o valor não era o informado. “Cento e dez reais, minha senhora. Se não quiser pode ficar por aí”, explicou impacientemente o motorista. Sem ter a quem questionar a informação passada anteriormente, pagamos o preço. A atitude do motorista nos mostrou que provavelmente a família Kaiapó não foi o primeiro grupo de pessoas a ficar pelo caminho, iluminado exclusivamente pela luz da lua.

Durante a viagem passamos por pelo menos quatro rodovias indicadas pela Confederação Nacional de Trânsito (CNT), entre as dez em piores condições do Brasil. Somado a isso, a inabilidade com as diferenças étnicas de seus passageiros e as irregularidades do transporte terrestre no Brasil são só algumas das mazelas que interrompem viagens de passageiros – indígenas e não indígenas – que não conseguem e nem poderiam chegar aos seus destinos de avião, já que estes territórios não fazem parte de rotas comerciais lucrativas às empresas aéreas e, muitas vezes, nem mesmo às de transporte terrestre.

Para as pessoas que dependem dessas rodovias, o Brasil continua a ser um país de rotas distantes, inexplorado e profundo. De acordo com os estudos da Confederação Nacional de Trânsito (CNT), em 2014, os governos estaduais do Brasil e federal tiveram que desembolsar R$ 59,1 bilhões por conta de acidentes de trânsito e custos gerados pela deficiência na pavimentação das rodovias. Entre os pontos críticos, a inabilidade governamental em trabalhar com regras ambientais básicas para a pavimentação desses territórios torna alguns caminhos cada vez mais instáveis e, se segurança fosse o tema, diria que intransitáveis.

O caminho até a aldeia Moikarakô

Embora nosso primeiro destino tenha sido Tucumã, ainda tínhamos um longo caminho a percorrer até a Aldeia Moikarakô, uma das 17 comunidades representadas pela AFP e, por coincidência, a aldeia onde vivem as lideranças que participam da Aldeia Multiétnica em julho. 

O trajeto de Tucumã à Aldeia Moikarakô é longo e pode ser feito via fluvial, terrestre ou aérea.  Por terra a viagem é de cerca de dez horas, dependendo das condições climáticas e da situação da estrada, aberta com a benção dos espíritos especialmente para a Feira Mebengokré de Sementes Tradicionais. Depois de longas horas em um “topa-tudo”, veículo preparado para rodar em estradas de chão e criar opções para desvios que a floresta impõe aos que utilizam a estrada, chegamos à aldeia.

Ao chegar, nos encontramos com Benjamim Kayapó, que nos questionou como teria sido a viagem, dando, logo em seguida, sua opinião sobre a rota. “A estrada da Chapada é boa, mas de lá pra Tucumã é muito complicado. Tudo ruim. Velha! Mas vocês viram né?! A estrada que a gente abriu ficou boa! Se não fosse a chuva... Na volta vou mandar vocês de avião ou de rio. É melhor. Mais fácil”, disse.

As péssimas condições da malha rodoviária estão entre os principais problemas dos povos do norte do país e para as comunidades indígenas isso não seria diferente. Benjamim, no entanto, estava satisfeito por, como membro da Associação Floresta Protegida, ter participado da abertura da estrada do P9, ponto que delimita o início da TI Kayapó, até a Moikarakô. Para ele, mesmo que com um prazo curto de duração do investimento, receber seus convidados com a estrada aberta era mais interessante.

Há que se considerar sobretudo o alerta de Osmar Kukõn Krahô, uma das lideranças do povo Krahô, que conhece bem as estradas do norte do país e que também marcou presença na II Feira Mebegokré de Sementes Tradicionais: “Todo lugar que se entra se pede permissão. Não existe fazer estrada no meio das aldeias sem permissão da floresta, sem cuidado com ela. Essa estrada do Tocantins para cá é assim porque queriam tomar tudo de nós sem ter sabedoria, mas a floresta devolve tudo o que é pra ser devolvido. Inclusive a raiva”.

Ao fim da II Feira Mebengokré de Sementes Tradicionais a estrada já estava intransitável. Atoleiros gigantes e árvores caídas pela força do vento e da chuva haviam fechado o caminho que em outro momento estivera aberto para receber os convidados do povo Kayapó. Seria o destino? Seria um convite para se pensar duas vezes quando kubens (não-indígenas) não convidados decidissem entrar no território? O que é certo é que a floresta realmente devolve tudo. Inclusive a raiva. 

Fotos por Simone Giovine e Kamikia Kisedje/ Associação Floresta Protegida (AFP) 

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