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KALUNGA: um anjo especial chamado Júlio

24/10/16 | Júlio celebra com a família, ali no barraco montado para recebę-los apenas naquele período do ano, Nossa Senhora da Abadia e o reencontro dos parentes mais distantes

O badalo dos sinos ligeiramente conduziu todo o povo para a frente da Capela de Santa Ana. Domingas observava de longe o batismo das crianças, com um olho para dentro da igreja e outro no pátio central, onde seus filhos mais novos brincavam com uma bola furada. Um de seus sobrinhos estava sendo batizado.

Dentro da igreja, avistei Preta, uma amiga bastante querida, segurando no colo Alex, um bebê de pouco mais de seis meses que seria batizado. Ao lado dos pais do garotinho, ela apresentou o afilhado à Igreja e, conforme me explicou, “a Deus e aos santos guardiões do povo Kalungueiro”. Para Preta, acreditar em um Deus que sabe de todas as coisas e que possui um batalhão de santos e anjos para auxiliá-lo na tarefa de proporcionar a seus filhos clemência e compaixão é coisa que não se deve questionar. No mundo de Preta e Domingas não sobrou espaço para incredulidade. Viver a tradição que foi ensinada pelos anciãos da casa ultrapassa qualquer sentimento de desapontamento com a realidade de seu povo.

 “Se a vida já é dura com Deus, imagine sem ele”, explicou Preta.

Uma vida aos cuidados de Deus é tudo o que essas mulheres conhecem. Isso porque no isolado Sítio Histórico Kalunga, o Estado não chega a ser uma instituição com poder ou interesse de estancar feridas de um passado recente e escravagista. A Igreja, por sua vez, tem elementos importantes na construção da identidade da comunidade e se mostra preocupada com seus fiéis.

Neste sentido, a Romaria de Nossa Senhora da Abadia, além de ser uma festa importante da cultura tradicional do Brasil Central que celebra a Virgem Maria, é também um momento marcante na vida das famílias do Sítio Histórico Kalunga. 

Sendo o único momento em que o padre visita a comunidade, é a ocasião em que são realizados os batismos e casamentos que em outro momento não acontecem pela ausência de um sacerdote a acompanhar a comunidade. É neste momento que as almas dos pequenos que se banham no Rio das Almas desde o nascimento são - por aquela mesma água - batizados, consagrados a Deus e reconhecidos pela igreja católica como membros dela.

A palavra ‘reconhecimento’ para um povo que até os anos 80 temia a escravidão é verdadeiramente desejada e também o que faz, ano após ano, famílias inteiras participarem da Romaria de Nossa Senhora da Abadia, em agosto. Com objetivos religiosos e sociais importantíssimos à comunidade, a celebração toma uma nova dimensão.

Sobre o pau-de-arara, vão e vem homens e mulheres de todos os cantos do território para reencontros familiares que nunca sabemos quando acontecerão novamente. Atravessar a serra é um verdadeiro desafio, principalmente se o seu único meio de transporte é o pau-de-arara. Caminhonetes e carros utilitários capotam com incidência rotineira e, naturalmente, as vidas de muitas dessas pessoas que se arriscam nessa viagem ficam pelas serras. Nessa Romaria Negra só vê bem quem olha com o coração. Para tentar ver bem, me esforcei para ouvir aquelas que melhor poderiam me informar sobre a vida: as mães e as crianças. Domingas foi a mulher que no escuro me mostrou a luz.

Júlio e Domingas: a certeza da primavera na seca

Depois do batismo, a família de Domingas se reuniu junto ao barraco e montou um humilde altar, onde comemoraram a nova vida da criança, agora reconhecida como membro da Igreja. Perto de Domingas estava Júlio, uma criança sapeca a me atirar uma bola no rosto. Levei um susto que logo passou quando ele me pegou pela mão e me deu um abraço longo e carinhoso. Balbuciou algumas palavras que não entendi e jogou meu bloquinho de anotações para dentro de minha barraca. Depois disso entendi a riqueza daquele momento e abandonei o bloquinho, só retirado da bolsa para anotar curiosidades sobre os festejos à Nossa Senhora da Abadia e ao Divino Espírito Santo.

O pequeno mora no Sítio Histórico Kalunga com a mãe, o pai e os irmãos, em uma casinha simples e muito aconchegante de adobe, que tivemos a honra de conhecer, localizada depois da serra, sentido Teresina, no Vão de Almas, na volta da Romaria.

Júlio celebra com a família, ali no barraco montado para recebê-los apenas naquele período do ano, Nossa Senhora da Abadia e o reencontro dos parentes mais distantes.  No meio do Cerrado seco, Júlio, um garotinho especial, vive a liberdade que a falta de conhecimento sobre a presença do cromossomo 21 em suas células o garante. 

Reza a lenda que para aprender a nadar é preciso engolir uma piabinha.No caso de Júlio foi preciso mais de uma para que aprendesse a nadar. Isso não foi problema. Hoje o menino se diverte entre os amiguinhos mostrando como nada bem.

O menino, com ares de desbravador corre por todo canto em uma liberdade invejável. Desaparece no meio da mata e retorna com gravetos para construir uma fogueira só sua. Vez ou outra se irrita com o irmão ou o primo e luta de igual para igual até uma das partes pedir desculpas.  Às vezes sente uma dor no peito forte e tem dificuldades de respirar. Sua mãe, Domingas, resolve o problema com uma massagem no peito e pedindo à Virgem Maria, em canto, “piedade de nós”. Vendo essa cena, pergunto se Júlio já foi consultado alguma vez para descobrir a causa da falta de ar rotineira e da dificuldade na aprendizagem.

“Ele só é diferente. Feito toda a gente. Veja eu e você. Somos totalmente diferentes. Ele também não poderia ser igual  a ninguém”, responde Domingas.

Domingas é forte como Maria. Sabe que entre os filhos cada um tem diferenças incomparáveis e os ama igualmente. O que a faz tratar Júlio do mesmo jeito que cuida dos outros. A síndrome de Down é quase imperceptível em sua vida. Sua família compreende apenas como uma diferença comum de todo ser vivo. E sabe, eles tem razão. É por este motivo que o garoto é tão forte.

Tem na vida Nossa Senhora da Abadia por meio da mãe, que permite que ele seja só mais uma criança aprendendo tudo junto a seus primos e irmãos. Júlio e Domingas são a primavera da seca do Cerrado.

A Romaria tem momentos mágicos que os olhos da razão não conseguem admitir. Através das Folias e do modo tão colorido e particular de celebrar seus santos, o povo Kalunga conta uma nova história. História que não pode ser contada sem que algumas construções sociais sejam fortemente contrariadas e que, se observada sob o olhar simplista dos acontecimentos históricos, corre o risco de perder um elemento importante da história da vida real: "Tudo se transforma". No caso de Domingas, a fé a transforma e fortalece.  

O sincretismo e a re-significação dos ritos da igreja católica são no Brasil duas de nossas grandes riquezas e no Sítio Histórico Kalunga aparecem em abundância, sempre atreladas à força espiritual e ancestralidade do povo preto.  Sem padre, são as rezadeiras que com suas ladainhas dão o rumo das celebrações. Neste processo a comunidade reconhece o papel fundamental dessas mulheres, que trazem em si força desmedida para florir em meio às Serras da Chapada dos Veadeiros, em condições bastante avessas à ideal, - sem energia elétrica, rede de esgoto, serviço de telefonia e/ou saúde pública - e caminhar por rumos incertos, guiando as flores que as chamam de “mãe”.

Domingas /Foto: Ester Simon

Durante a Romaria de Nossa Senhora da Abadia, os galhos retorcidos do cerrado e o amarelo cobreado do período de seca é ornado com a vitalidade das crianças do Sítio Histórico Kalunga, que ocupam verdadeiramente a posição de anjos, não só do Império, mas da pequena vila construída ao redor da capela, que se eu pudesse nomear, daria o nome de Vila dos Encontros.

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