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KALUNGA: a Romaria de Nossa Senhora da Abadia

22/10/16 | A festa mais importante do calendário Kalunga acontece em todo mês de agosto no Vão de Almas

Tem uma época em que é raro encontrar alguém do Sítio Histórico Kalunga nas ruas da vila de São Jorge, onde comumente eles migram para trabalhar ao longo do ano, assim como tantas pessoas de outras regiões do Brasil e do mundo. Muitos já avisam com antecedência aos patrões: não contem comigo de 12 a 16 de agosto. É período sagrado, de Romaria de Nossa Senhora da Abadia. Depois de tanto trabalho no mês de julho, por conta do Encontro de Culturas, que atrai grande número de turistas à Chapada dos Veadeiros e aumenta a oferta de empregos local, é momento de estar em casa e se reunir com os seus. Louvar a santa, festejar, pagar promessa, pedir as bênçãos em oração e folia. Para nós, da equipe da Casa de Cultura, é tempo de fazer tudo isso e ainda retribuir a visita aos amigos queridos. Deu agosto, nossa pequena excursão são jorgense subiu nas caminhonetes e pegou estrada pra viver a festa mais importante do calendário desse povo guerreiro do cerrado, a celebração original que em parte é apresentada durante o Encontro.

O espaço da Capela, no Vão de Almas, se transformara depois da Folia de Nossa Senhora das Neves. Agora, havia mais gente, mais famílias e rostos forasteiros. Barracas de comida, bebida e brincadeiras ganharam forma, luzes e muitos sons. Minha impressão, chegando na noite daquele 12 de agosto, foi a de entrar num espaço de tempo único, que consegue reunir diversos fazeres. Ali, cada um vive o si da forma que preferir. Tem quem vá pra rezar, tem quem queira só se divertir e descansar, tem quem tire aqueles dias de festa e movimento pra fazer uma grana extra na venda de pratos feitos, comes e bebes, cerveja, cachaça. Tem quem faça de tudo um pouco – ou muito de cada coisa. Para um forasteiro, é preciso chegar de mansinho, como que pedindo licença pra entrar numa ocasião tão importante. Para os kalungas, é hora de reencontrar familiares e amigos há muito distantes, celebrar suas crenças e o modo de ser kalungueiro. Um modo de ser que com o tempo percebeu sua importância e hoje é motivo de orgulho. “Cê se alembra de quando chamavam nóis de kalunguero do pé rachado? A gente sufria na cidade. Agora todo mundo quer ser kalunguero”, conta Seu Waldomiro, dotô dos melhores, que cura de doença a mau olhado com simpatia e muita erva do cerrado.

O rio

A conexão com a natureza é muito forte na maioria das comunidades tradicionais. Inclusive, acredito, seja esse um dos maiores ensinamentos que elas têm a passar aos povos inseridos na cidade e na perspectiva capitalista, ajudando-os a recuperar parte dos recursos físicos e espirituais que foram perdidos no período do construir, lucrar e acumular trazido pela era industrial. Nesses rincões do Brasil, homem e natureza são um só, como devem ser. Para quem passou um longo tempo longe disso, como eu, é como o Juliano diz: terapia de roça.

E uma das melhores recompensas da mãe-natureza a quem a protege é a água. Num calor como faz na Capela, rio é point. Você já acorda suando e a transpiração só aumenta conforme o sol vai subindo no horizonte. Chega um momento de quase desespero, quando ele bate no chão de terra vermelha, não há uma brisa soprando pra amenizar a sensação térmica de mais de 40 graus e as geladeiras só dão uma refrescadinha nas bebidas, por conta da energia elétrica muito fraca, que ainda não chegou por lá e só funciona por meio de um motor ligado nas ocasiões especiais. Por isso, em qualquer hora do dia, o Rio das Almas congrega a festa. É o maior espaço de sociabilização. Oferecer pra lavar louça é ouvir: “Mas Ana, é a hora que eu mais gosto”, como me diz Cleusa. Isso porque as mulheres empilham pratos, talheres, copos e tudo o que mais couber numa bacia, acomodam no topo da cabeça e saem suntuosas, cinematográficas, em direção ao rio, pelo menos duas vezes por dia. Sobem as saias coloridas e sentam-se nas pedras pra trabalhar. Ali também lavam as roupas, que serão batidas até ficarem limpas. É bom também pra botar o papo do dia em ordem e prosear sobre como será as celebrações de mais tarde.

Também tem a hora do banho. Na Capela, assim como em boa parte das casas no Sítio Histórico Kalunga, os banheiros ainda não chegaram. Banhar é no rio e fazer as necessidades, no mato. Quando se banha no rio uma vez, chuveiro fica chato. Pra mim, não tem nada melhor do que enxaguar o cabelo lavado deslizando a cabeça de um lado pro outro dentro d’água. O banhar, comumente um momento íntimo, torna-se coletivo. Perde-se em parte esse pudor construído de mostrar e sexualizar o corpo nu, mesmo que a maioria mantenha a roupa de banho. “Eu venho de sutiã, sem sutiã... O povo aqui não arrepara, Ana”, comenta Cleusa.

A comida

Dentro de casa, lá vai água pra refrescar o piso de chão de terra batido e amenizar o calor. Nas bacias com água trazida do rio, as canecas ficam a postos para tanto. Também servem para cozinhar nos fogões à lenha ou à gás. A comida kalunga tem seu tempero próprio. Simples e saborosa, basta-se com arroz, feijão, uma carne (se tiver sorte, uma galinha caipira, dessas criadas soltas no quintal que fazem nunca mais querer as de granja), um legume (normalmente maxixe, guariroba ou mandioca, que dão de monte) e farinha, muita farinha Kalunga.

A farinha é um dos melhores meios de subsistência dos kalungas e quase todo mundo tem um forno próprio em casa pra fabricá-la e depois vendê-la nas cidades de fora. Crocante e mais pedaçuda, é única. O pirão feito com ela junto com o caldinho que fica na panela da galinha caipira é um dos sabores que mais me confortam – se precisasse de uma definição pra confort food, citaria essa. Faz tanto sucesso que os indígenas que vêm à Aldeia Multiétnica no mês de julho, também mestres em fazer farinha, já chegam perguntando sobre a especiaria kalungueira, saudosos. No Encontro essa é uma coisa que não pode faltar e já encomendamos sacos e sacos com antecedência.

Na Capela, são muitas as boas cozinheiras que abrem restaurante nessa época, mas duas estão no meu coração: Cleusa, com sua “jantinha”, como carinhosamente os PF são chamados no jantar aqui em Goiás, com espetinho, arroz, feijão tropeiro e salada (o vinagrete); e Fiota, que faz uma mesa farta e das boas pra comer à vontade no almoço. Pimenta Kalunga no prato – pelo amor de Nossa Senhora d’Abadia e de você mesmo, com moderação, porque ardida igual nunca vi – e o rancho tá pronto. Tem também a barraca de água de coco, que por milagre vem trincando, e os picolés e geladinhos que marcam segundos de alegria profunda antes de derreterem.

O suco de saquinho e o refrigerante não deixam escapatória. Num calor desse, são eles que refrescam e enganam pela facilidade que proporcionam. Já dominaram todas as mesas kalungas e infelizmente vejo possibilidades raras de controlar ou evitar que sejam consumidos. Mais uma demanda para o governo nessa terra desassistida: ações de conscientização e segurança alimentar.

A celebração

A pequena igreja que deu origem ao nome do local da romaria, Capela, é de Sant’Ana, mas em seu altar é Nossa Senhora da Abadia quem ilumina, junto a imagens de outros santos, como São Jorge, e anjos. Para a ocasião, foi toda enfeitada com flores e bandeirolas de papel crepom colorido. As missas aconteciam todas as manhãs, inclusive com um dia específico para batizados. É a única vez no ano em que o padre vai ao local e, portanto, todos aproveitam pra batizar os meninos que nasceram desde a última visita e os maiores que ainda não tiveram essa oportunidade. Um certo ar de tumulto toma conta, uma fila se forma e o espaço fica pequeno pra tanta gente e tanto menino chorando, a maioria assustada com a rápida cerimônia, em que nos braços dos padrinhos se dirigem ao padre para receber a água benta do Espírito Santo. No fim, é risada pra todos os lados e em cada casa onde uma criança foi batizada uma pequena festa é montada no quintal pra celebrar o momento.

O dia 13 é guardado para o Império do Divino Espírito Santo, cujo imperador este ano foi Zezinho, um dos guias mais famosos do Kalunga. Grande contador de histórias, é presença marcante no Encontro de Culturas, com seus óculos de sol bem escuros e sorriso largo. Na noite anterior, uma bela procissão percorreu a Capela após a reza da noite, sempre comandada pelas rezadeiras, as anciãs da comunidade que guardam as palavras e o conhecimento ancestral. Guiados pelo som dos instrumentos dos foliões, demos a volta na igreja até chegar à casa central (um barracão de alvenaria comunitário). Ali, muitos biscoitos e refrigerantes montados numa mesa decorada esperavam a folia chegar. Depois de comer, era hora de seguir para a casa do imperador, que já esperava com outro banquete e muito quentão. As candeias iluminavam o caminho, nas mãos dos pecadores que as seguravam. “Se apaga, tem que acender rapidinho, senão dá azar. Mas se cair no chão, iiii, aí é mau sinal. Se continuar acesa até o fim, ô, é sorte”, me explica Preta, enquanto me ensina a manejar a comprida vela de cera de abelha e algodão, me ajudando a apagá-la na chegada à casa. “Senão, é perigo incendiar”, diz, apontando o telhado de palha e correndo pra se trocar pra participar da quadrilha que começaria ao lado.

A casa de Zezinho se manteve cheia até o dia seguinte, quando logo pela manhã os preparativos estavam a mil. Gente pra lá e pra cá, pendurando enfeite, fazendo bolo, preparando comida, escovando o cabelo e escolhendo a melhor roupa pra noite. Ser imperador não é tarefa fácil. É por isso que quando acontece o sorteio para ver quem será o imperador para o ano (expressão kalunga para dizer “ano que vem”), logo após a reza e a cerimônia do Império, a ansiedade paira no ar. Os primeiros papéis tirados revelam os “mordomos de 8 reais”, anunciados primeiro na igreja e depois em alto e bom som pela janela, pra quem não coube lá dentro escutar. Eles são muitos e ajudarão na festa vindoura. O sino não para de tocar e se intensifica no último papel a ser lido: o nome do grande sorteado, que ao ouvi-lo cai por terra, aos prantos. No início achei que fosse emoção. Depois, percebi que era desespero. Ele continua chorando até o fim da festa, quando senta-se ao lado do imperador atual pra celebrar o Império. Olha a decoração, o belo bolo de glacê branco e azul que é partilhado com toda a comunidade, a abundância de comidas e bebidas... E chora. É amparado pelos amigos e familiares. No ano que vem, é ele quem deverá bancar a festa inteira. De troça, os conhecidos festejam a sorte de não terem sido escolhidos. “Ó, minha fia, tenho 50 anos e nunca fui imperadô”, me conta um homem, orgulhoso.

O ritual se repete no dia seguinte com algumas mudanças. É o Império de Nossa Senhora da Abadia, desta vez com um imperador, uma imperatriz e seus anjos, crianças da comunidade. A bela cerimônia acompanhada pelas caixas dos foliões, ao som dos estouros quase ininterruptos dos foguetes (que são chamados com impaciência se quem os estiver soltando pestanejar uma vez), com belos trajes, muito colorido e feições sérias nos rostos daqueles que receberam a missão. A espada e a bandeira do Divino Espírito Santo e da santa cortam o ar na mão de seus detentores logo em frente à procissão, barrando qualquer mal que queira atingir sua corte, também protegida por quatro mastros enfeitados.

A romaria dos kalungas é a genuína caracterização da mistura entre sagrado e profano, tão citada nas descrições acadêmicas sobre as festas populares do Brasil. As festas vão até o sol raiar no forró kalunga, que tem seu estilo próprio de dançar e cantar. O gênero é uma influência externa adaptada à cultural local. Assim como muitos dos ritmos que se ouve dias e noites seguidos, sem parar e em alto e bom som. A música não para.

Romaria é sinônimo de reza, procissão com candeias, levantamento do mastro, banquetes de biscoitos e bolos, refrigerante e cachaça à vontade, foguetes que cortam o céu. A festa é bonita e todo mundo entra na dança, dos mais novos aos mais velhos. Foi um dos momentos de confraternização mais impactantes que já participei na vida. Uma energia positiva envolvente e emocionante. Aos meus olhos e na minha lembrança, as memórias são de dias coloridos, que brilham. Lembram água, fogo, suor, tradição, força, muita fé. Os sons são dançantes, barulhentos, como casa cheia. E as risadas ecoam por todos os lados. É o Brasil em sua forma mais escrachada.

Viva os Kalungas! Viva o Brasil!

Fotos: Diego Zanotti e Esther Simon

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