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KALUNGA: a Folia de Nossa Senhora das Neves

21/10/16 | A primeira etapa de nossa viagem pós-Encontro de Culturas ao Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga aconteceu no início de agosto, na festa que precede a grande romaria na Capela

Início do mês de agosto. Na estrada de chão de terra batida que leva até o Vão de Almas, no Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, marcas de pneu de caminhonetes 4x4 mesclam-se às pegadas de burros e cavalos. Esses ainda são os únicos que dão conta de enfrentar o terreno íngreme, as curvas que pedem atenção ou levam a cair vão abaixo, as passagens por riachos, os pedregulhos, buracos, os desafios da poeira que levanta e esfumaça como neblina do cerrado. É minha segunda vez neste que é o maior território remanescente quilombola do Brasil. O motivo é a reza da Folia de Nossa Senhora das Neves, padroeira da região, cultuada no dia 5 deste mês. No caminho, sempre deslumbrante, o cerrado se mostra cada vez mais amarelado e seco. Uma seca que preocupa os pequizeiros que ainda não floresceram, os cajuzinhos que demoram a vermelhar e os rios que desapareceram mais rápido que de hábito. Há meses a chuva não abençoa este chão sagrado.

Chegamos no início da noite, quando a folia já entrava na pequena igrejinha da Capela. Já cheguei dando um abraço apertado em Cleusa, que trabalha no Encontro de Culturas e sempre deixa saudade quando parte ao fim de um evento. De braços dados, já me conduziu pra dentro e pediu a um garoto que me desse uma “pêta”, biscoito como de polvilho, mas abençoado naquele dia em homenagem à santa: “come tudo, Ana, que faz bem pra garganta, pro estômago”.

Capela é o nome dado ao espaço onde acontecem as principais festas Kalunga. Em todo o território – dividido em comunidades rurais nos municípios de Cavalcante, Terezina e Monte Alegre –, as casas foram construídas a distâncias que variam de 3 a 5 km uma da outra. Uma estratégia de segurança, contam os mais antigos, contra inimigos que poderiam atacá-los. Familiares acabam ficando muito tempo sem se ver, inclusive por conta das migrações em busca de oportunidades de trabalho. Uma vez ao ano, no entanto, todos se dedicam ao encontro neste espaço, onde louvam aos santos padroeiros, agradecem, fazem seus pedidos e fogem da rotina em festejos muito animados. É quando os barracos de adobe e pau-a-pique, cobertos com palha, são reocupados. A Capela ganha vida. Parentes e amigos que não se veem há meses têm a chance de tornarem-se vizinhos por uns dias. O principal encontro é a Romaria de Nossa Senhora da Abadia, de 13 a 16 de agosto, mas dois o precedem: a festa de São João, em junho, e a de Nossa Senhora das Neves.

Nossa Senhora das Neves, a protetora dos alpinistas, ganhou lugar no coração de uma terra onde neve é realidade distante. No entanto, pelas serras íngremes que seus filhos enfrentam nas idas e vindas do Kalunga, a coincidência se torna poética. Aqui, a santa é tão louvada e protegida que aparece envolta em um pano, que não é retirado em nenhum momento da cerimônia. “Ela é de ôro, minina. Tem muitcha gente di oio, quereno robá”, alerta seu Salviano, o grande guardião da imagem, junto à esposa, Dona Luzia.

Contam os mais antigos que ela foi trazida há “muuuicho tempo”, por um casal que teria ajudado na criação da Capela e das tradições kalungas. Pedro e Maria vieram da Cidade de Goiás Velho, antiga capital do estado, passaram um tempo na região no caminho da longa viagem e deixaram a santa de presente. Em uma celebração como essa, não há muito o perguntar. Os causos revelam-se naturalmente hora ou outra, mas se chegar feito acadêmico e jornalista, vasculhando informação, não há de muito encontrar. Minha felicidade é voltar e perceber que o verbo que impera continua sendo o sentir.

Reza e folia

Um burburinho ecoava na capela. Depois da folia do começo da noite, o jantar já havia sido servido, a bandeira da santa levada à igreja e o forró esquentava as primeiras notas. Esperávamos as rezadeiras, que se banhavam no rio àquela hora, depois de um dia inteiro cozinhando e organizando os preparativos. Este ano, Baiano é o anfitrião, responsável pela realização da festa. No ano passado, sofreu um grave acidente de moto que levou sua perna esquerda. “Mas num levou a vida, né, fia?”. Por isso, se apresenta para agradecer Nossa Senhora das Neves e celebrar.

Quando o som pará, você vai pra igreja, que é hora da reza começá”, me conta Homes. Naquele espaço que define tão bem as festas populares brasileiras, nas quais o sagrado e o profano se misturam, respeito é palavra de ordem. Quando tem reza, não tem som alto.

Gente, cadê Tereza?”. “Tá cum dor de cabeça e disse que num vem”. “Mas sem ela não acunteci. Só ela sabe essa reza”. “Vô lá buscá ela”. Minutos depois Tereza irrompeu pela porta da capela como uma rainha, de lenço verde na cabeça, olhar fixo e passo firme. Foi direto ao altar, terminou os preparativos ao seu modo, sentou na primeira fileira e começou a reza. Era a única que sabia a reza de Nossa Senhora das Neves. “A gente até acompanha, mas tem que ter esses mais antigo pra conduzi”, me explica Homes. “Eita, a senhora, hein? Tantos anos e num memorizô a reza. Como é que vamo passá pros mais novo?”, já virou pro lado e lançou uma bronca. Dali pra frente, os sons na pequena igreja ecoaram: cada um a seu ritmo e em seu tom cantava à santa, em um resultado nada uníssono.

O rezar no Kalunga também traduz uma essência das comunidades tradicionais: a falta de cerimônia. Não é como nos grandes templos, em que silêncio é sinônimo de respeito. Ali, naquela capela em pleno Vão de Almas, cada um conhece o seu espaço. Não tem problema se as mulheres estão rezando em frente ao altar e os homens começam a preparação do mastro para a levantada que seguirá. É uma organização desordenada, em que a fé está no coração e convenções não cabem.

Ao fim da reza, filas se formam para saudar a santa coberta em cima do altar. Do lado esquerdo vão os homens; do direito, as mulheres. Ao final, Dona Luzia recolhe a imagem e com ela junto ao peito sai para acompanhar a procissão que já se inicia ao redor da capela. As voltas são guiadas pela imagem da santa na bandeira, candeias acesas em mãos, ao som dos foguetes, dos sinos que badalam e da viola e dos tambores que entoam canções tão antigas que nem se sabe mais de quando são.

Bandeira no mastro, hora d’ela chegar mais perto do céu. Ao som das caixas e pandeiros dos foliões, a cerimônia recomeça. Há quantos anos aquele gesto é repetido? A maioria frequenta a folia desde que nasceu. Mais uma grande festa sagrada. Os foguetes barulham, a cachaça e o refrigerante molham a garganta daqueles que cantaram e rezaram. A sussa começa animada logo em seguida, jogando poeira pro ar, cortando os olhares com saias coloridas e passos ancestrais, cheios de significado, referências e interferências. O forró já é ligado nas caixas logo ao lado, chamando pra última etapa da festa. Deu tudo certo, vamos celebrar. Viva Nossa Senhora das Neves! A festa vai até o sábado amanhecer. Ele se estende como um domingo e antecipa os preparativos para o próximo grande encontro, que está pra começar: a romaria de Nossa Senhora da Abadia bate na porta e convida a todos a entrar.

Foto: Juliano Basso

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